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Entrevista com Dave Erickson (Criador e Produtor)

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Qual é a premissa da série?

Fear the Walking Dead é uma história paralela a 1ª temporada do The Walking Dead. Retrata o período em que Rick Grimes, do seriado original da TV e dos quadrinhos, encontra-se em coma. Rick é baleado, entra em coma, acorda 4 ou 5 semanas mais tarde, quando o mundo acabou. Fear the Walking Dead mostra ao público o que aconteceu nesse perído de tempo. Então, quando nós começamos o show, o mundo está apenas começando a desmoronar, e é uma nova descoberta para todos os nossos personagens e, basicamente, uma educação apocalíptica, porque as pessoas começam a ficarem perdidas, tudo é lento, há atos de violência aqui e ali – as pessoas não sabem muito bem do que se trata. E o nosso núcleo familiar são os olhos e os ouvidos para este novo mundo que estamos pisando. Então, eles vão experimentar a entender os “caminhadores” (walkers ou zumbis), compreender o que isso significa e como eles se adaptam ao mundo com as mudanças.

Você pode descrever algumas das várias dinâmicas familiares dos personagens?

Estabelecemos uma família misturada e altamente disfuncional. Os dois personagens principais são a matriarca e o patriarca. Kim Dickens, que interpreta Madison, é uma viúva com dois filhos (Nick e Alicia), um dos quais tem sérios problemas com drogas. Travis é um pai divorciado, que tem uma relação muito volátil com o filho de 16 anos de idade, Chris.

A série começa com a história de dois pais que tentam acomodar todos sob o mesmo teto e tornar a vida tão normal quanto ela pode ser. A grande ironia do nosso show é que o apocalipse força estas pessoas a viverem juntas, para o melhor ou para o pior. Todos os problemas que eles enfrentam são as histórias que começamos a mostrar ao público, e a grande diversão que temos é explorar o que acontece quando, de repente, colocamos os zumbis na história.

Uma das coisas que Robert Kirkman tem sempre enfatizado é que essas pessoas são como você e eu – trabalhadores comuns de classe média americanos, que estão de repente oprimidos por algo que não conseguem entender – e o problema é que se não aprenderem a compreender e adaptar-se rapidamente, eles vão morrer. Todos os conflitos que existem são realmente o fio condutor para a história desta 1ª temporada e para as demais.

 

Como a ideia da família veio a ser um dos temas principais da série num show sobre o apocalipse?

Há uma intersecção nos primeiros episódios quando as pessoas começam a manifestar-se com atos violentos na cidade e no estado. Há um aumento no número de tiroteios com a polícia, levando a alguns distúrbios e tumultos. A ideia é mesclar algo que é pertinente a cidade com os aspectos mais fantásticas dos “caminhantes” e integrar estas duas coisas.

As nossas duas famílias (a família mesclada de Travis e Madison e a dos Salazar) não poderiam ser mais radicalmente diferentes e eles são forçados a uma estreita ligação. Em The Walking Dead, você vai do zero ao apocalipse muito rapidamente, e vemos as consequências no grupo que se formou. O que estamos fazendo em Fear é colocar as peças juntas em uma grande família. É como assistir a desintegração da sociedade através da desintegração da família. Quando as famílias são forçadas a viverem juntas, torna-se como um “guisado” de família disfuncional, e as questões pré-apocalipse não vão simplesmente desaparecer.

Kirkman sempre diz: “Os pais se divorciaram. Há zumbis. Não foram convidados para o baile de formatura. Oh, há zumbis.” Tematicamente, isso é algo que estamos tentando ampliar e continuar, e nós temos uma chance de realmente cavar essas histórias interpessoais. É como as coisas que dizemos aos nossos filhos, nossa visão de nossos pais etc. É uma questão de identidade. As coisas estarão mudando com as diferentes temporadas do show, mas o drama familiar que já colocamos serão os que são levar o show adiante … juntamente com os “caminhantes”.

Por que você decidiu colocar a história Fear The Walking Dead em Los Angeles?

Quando Robert e eu nos sentamos para conversar, ele imaginou a oportunidade de explorar parte de viver dentro do mesmo agrupamento mitológico e explorar algumas idéias que ele não tinha tido a chance nas histórias de quadrinhos ou nas séries de TV. A razão de escolhermos Los Angeles como cenário foi porque a temática específica de Los Angeles, assim como da costa oeste dos Estados Unidos realmente espalha-se entre aos nossos personagens. Los Angeles é um lugar que você vai para relaxar, para reinventar a si mesmo, e o que nós descobrimos durante a temporada do show é que muitos dos nossos personagens possuem marcas do passado, falhas e atos questionáveis ​​em sua história. Eles estão tentando se distanciar do passado e o início do apocalipse obriga-lhes a conectar com quem eles foram no passado ou a tornar pessoas completamente diferentes.

Como você decidiu filmar parte da temporada em Vancouver?

Estamos filmando a maior parte do nosso trabalho externo em LA; a maioria do nosso trabalho interno estamos fazendo em Vancouver. É conveniente porque temos uma fantástica base de produção em Vancouver, além de ser um ótimo lugar para filmar, totalmente adequado ao show. Certos lugares de Vancouver se parecem com Los Angeles. Ali podemos encontrar alguns lugares que correspondem ao centro da cidade, e se você consegue encontrar os lugares certos, funciona.

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Qual é o cronograma de Fear em relação a The Walking Dead e do início do apocalipse. Como isso afeta a história? Como você acha que irá afetar o público?

Voltamos ao começo. A linha do tempo que estamos cobrindo é durante o coma de Rick – não exatamente, porém mais ou menos abrange esse tempo. Eu tenho uma mudança específica para um personagem na minha mente que vai acontecer depois da 1ª temporada, e tudo vai se concentrar nos conflitos dos personagens que estamos criando neste momento. Eu vou deixar o apocalipse evoluir a partir desta situação.

Há certas coisas que irão acontecer entre Travis e Madison, Nick e Madison, os Salazar, e isso para mim é onde a história vai viver e respirar, no interpessoal e, em seguida, é claro, existe o modo de sobrevivência. Nós vamos lidar com o fato de que não há água ou comida suficiente, mas o objetivo é preencher a história com muita personalidade e conflitos interpessoais, para que esses elementos de sobrevivência sejam um complemento ao invés de se tornar a história.

Uma das coisas sobre a nossa abordagem do apocalipse é que os personagens podem viver um pouco e começamos a entendê-los como pessoas e seus relacionamentos. Isso para mim é um mundo que o público vai entender, se relacionar e até sentir-se atraído. Então, quando chegar o perigo, vai ser muito mais intenso e cheio de suspense, porque você teve a chance de realmente chegar a conhecê-lo antes que as coisas piorem.

Quem são as pessoas envolvidas na criação de Fear?

O show em última análise, começa e termina com Robert Kirkman. Robert teve a ideia de fazer isso alguns anos atrás. Tudo começou com ele, e nós colaboramos e desenvolvemos o piloto e, em seguida, desenvolvemos o show. Estamos muito felizes porque o núcleo de produção executiva da série original está também envolvido.

Em seguida, tivemos a grande sorte de trazer Adam Davidson, que dirigiu o piloto e os dois episódios seguintes. Adam trouxe realmente um grande entendimento de Los Angeles ao Fear, local onde começamos a nossa história. Ele realmente trabalha com os personagens, uma história que começa a partir do interior dos personagens e caminha para o seu exterior. Ele também tem um incrível olho cinematográfico e percebeu algo no projeto piloto que era muito original e específico a Los Angeles. O talento neste show é uma superabundância de riquezas.

Fale-nos um pouco sobre a família Salazar que vamos conhecer na 1ª temporada.

Temos a oportunidade de explorar uma família diferente nos Salazar, uma família que tem seus próprios segredos, sua própria bagagem. E isso é a temática do show. Todo mundo está vindo para cá para lidar com o apocalipse, mas com sua própria bagagem, incluindo os segredos e pecados que cometeram – todos os quais são forçados a agir, quando as coisas vão terrivelmente, terrivelmente mal.

O que é diferente sobre este show?

Uma das principais diferenças é que estamos bem no começo do apocalipse. Então, para os nossos “caminhantes”, ao contrário dos caminhantes do show original, eles se parecem em grande parte aos humanos. E o que isso representa aos nossos personagens é que eles estão entrando em um mundo que eles não estão preparados. Eles não passaram por um treinamento intensivo de zumbis. Portanto, quando eles são confrontados com alguém que era um vizinho, membro da família ou amigo, e de repente essa pessoa está tentando atacá-los ou matá-los, a reacão original é de não reagir e ser violento. Eles vão tentar descobrir o que está errado com eles. Eles estão doentes? Eles estão tomando alguma coisa? A onda inicial de violência que vem com o apocalipse e o comportamento das pessoas são reduzidas a um vírus, como um micróbio. Teria sido a água contaminada? Todo mundo está tentando descobrir o que aconteceu. Então, vamos ver os “caminhantes” com um olhar muito distinto. Eles ainda serão horríveis, mas eles não terão a qualidade deteriorada e atrofiada que vimos no The Walking Dead.

Como é que os novos caminhantes de Fear impactam os personagens? O que é diferente da outra versão?

Quando chegarmos no momento em que nossos personagens vão precisar se proteger, eles se colocam em um lugar muito diferente emocionalmente, porque a decisão de matar é extremamente difícil. Assim, o processo pelo qual você enfrenta essa situação e os feitos emocionais e psicológicos decorrentes dessa situação é o que queremos explorar e fazer nossos personagens lidar com isso ao longo da temporada.

É mais fácil matar os caminhantes em The Walking Dead porque eles se parecem com monstros, diferente dos nossos caminhantes. Quando nossos personagens são confrontados com a necessidade de matar pessoas, isso terá um peso emocional. É exatamente o que Robert queria mostrar. Como é difícil esse processo e o que faz a sua alma, porque para todos os efeitos, você está sendo confrontado com pessoas que eram seus vizinhos ou colegas, que há dois dias estavam bem – por isso não tão fácil de fazer e haverá um peso emocional.

Como você espera que o público responda?

Em última análise, para os nossos personagens na 1ª temporada, é muito mais sobre o monstro que você não vê. Eles estão processando um nível elevado de paranoia, tensão, ansiedade, enquanto o mundo começa a desmoronar. Isso poderá representar qualquer medo em comum que temos diariamente, e o que isso faz e como isso faz você interagir com as pessoas que você ama.

Então, essa é a base. E, em seguida, explode em algo muito mais violento e mortal quando começamos a entender. Ok, o mundo está terminado. E o que acontece quando a pessoa que você ama se torna uma responsabilidade? O que acontece quando a pessoa que você odeia torna-se uma com mais valor? As pessoas que você acha que estão prontas para lidar com qualquer situação são muitas vezes os menos prováveis de sobreviver.

O que também é interessante para mim é quando você pega duas pessoas que se preocupam uma com o outra profundamente. E, de repente, aquele amor e compaixão que ambos compartilham poderá comprometê-los. Então, o que acontece quando a pessoa que você mais ama é o elo mais fraco na sua corrente? O que acontece quando protegendo-lhes isso compromete você e seus entes queridos? Esta é uma questão que teremos de enfrentar esta temporada, e eu acho que as pessoas irão responder a essas perguntas.